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Biografia

Jorge Fonseca (1966) é mineiro de Conselheiro Lafaiete, ex-marceneiro e maquinista de trem. Artista auto¬didata, foi premiado no 53° Salão Paranaense (1996), no Salão de Arte Contemporâ¬nea de Campos (RJ, 1996) e no Salão Nacional de Arte de Goiás (2002). Em 2009, recebeu da Fundação Pollock-Krasner, de Nova York, uma “bolsa de estímulo à produção” – por mérito e conjunto da obra. Atuou também como designer de moda e de móveis, arte-educador, diretor de criação e produção de grupos de artesãos, dirigente de organização não governamental, idealizador e coordenador de projetos sociais e professor convidado, por notório saber, do Departamento de Artes da Universidade Federal de Juiz de Fora. Vive e trabalha em Ouro Preto.

Principais exposições coletivas: “Projeto Macunaíma” (Funarte, Rio de Janeiro, RJ, 1998); “Cotidiano/Arte” (Itaú Cultural, São Paulo, SP, 1999); “Bravas Gentes Brasileiras” (Palácio das Artes, BH, MG, 2000); “Tendências Internacionais” (Espaço Mascarenhas, Juiz de Fora, MG, 2000); “Arte e Erotismo” (Galeria Nara Roesler, São Paulo, Sp, 2000); “500 Anos de Design”. (Pinacoteca do Estado, São Paulo, SP, 2000); “Rumos da Nova Arte Contemporânea Brasileira” (Palácio das Artes, BH, MG, 2002); “Projeto a Imagem do Som” (Paço Imperial, Rio de Janeiro, RJ, 2002); “Rumos Visuais” (Itaú Cultural, São Paulo, SP, 2002); “Tudo é Brasil” (Paço Imperial, Rio de Janeiro, RJ, 2004); “Arte Brasileira Hoje” (MAM, Rio de Janeiro, RJ, 2005); “6ª Bienal de Arte Contemporânea de Kaunas” – (Lituânia, 2007); “Sonhos, Desejos e Figurações” – (MAC, Niterói/RJ, 2008); “Coleção Gilberto Chateubriand / aquisições recentes” (MAM, Rio de Janeiro, RJ, 2010); “arteBA’ 10 / Feira Internacional de Arte de Buenos Aires” (Argentina, 2010); Quadrienal de Praga (República Tcheca, 2011); SP/Arte (2014 e 2015); Art/Rio (2014); Bola na Rede (Funarte/Brasília, 2014)

Principais exposições individuais: Galeria de Arte Cemig (Belo Horizonte, MG, 1996 e 2008); Projeto Macunaíma (Funarte, Rio de Janeiro, RJ, 1999); Centro Cultural Cândido Mendes (Rio de Janeiro, RJ, 1999); Galeria Celma Albuquerque (Belo Horizonte, MG, 2000); Galeria Annamaria Niemeyer (Rio de Janeiro, RJ, 2001, 2004 e 2007); Museu da Inconfidência (Ouro Preto, MG, 2003); Quadrum Galeria (Belo Horizonte, MG, 2004), Galeria Thomas Cohn (São Paulo, SP, 2007) Galeria Graphos:Brasil (Rio de Janeiro, RJ, 2011)

Possui obras em importantes acervos e coleções, dentre eles: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (Coleção Chateaubriand); Museu de Arte Contemporânea de Niterói (Coleção Sataminni); Museu de Arte Contemporânea de Curitiba; Museu de Arte Contemporânea de Goiás; Museu Afro-Brasil /SP; Centro Cultural Cândido Mendes/RJ; Ângela Gutierrez/MG; Ângela Fragoso Pires / RJ; Anna Maria Niemeyer/RJ; Antônio Grassi /RJ; Arthur Peixoto/RJ; Blue Man/RJ; Carlos Saldanha / RJ; Celma Albuquerque/MG; Ellus/SP; Fernando Luchesi/MG; Frederico Morais/RJ; Irapoan Cavalcanti/RJ; João Luiz Avelar/MG; José Luiz dos Mares Guia /MG; Jovelino Mineiro/SP; Leonel Kaz /RJ; Léo Bahia/MG; Lulu Santos/RJ; Márcio Doctorsl/RJ; Nelson Leirner/RJ; Nelson Eizirik/RJ; Paulo Geyerhan /RJ; Roberto Sequini/RJ; Tadeu Bandeira/MG; Thomas Cohn/SP; Viviane Hentsch/RJ.

Obras

Objetos Bordados

Esculturas e Instalações

Objetos Cinéticos

Outras Técnicas


Textos Críticos

Lux!

Catálogo Quadrienal de Praga
República Tcheca, 2011

Jorge Fonseca, fortemente influenciado pela cultura popular e por processos artesanais, aponta questões artísticas contemporâneas de forma singular, por meio de uma
investigação estética que rompe com as fronteiras das artes plásticas e assume contornos de elemento cênico. Suas obras se constituem como objetos cotidianos interpretados e recriados, capazes de redimensionar materiais a partir de uma lógica pararreal e poética, com forte ação dramática. O inventor parece sempre questionar o que e arte e seu limiar
com relação ao artesanato, principalmente ao se utilizar de procedimento típico de artesania, com latências que agenciam memorias, sorrisos, saudades, valores estéticos
e existenciais. Em Lux, essas questões são evidentes no aspecto iconográfico religioso trabalhado a partir de um viés conceitual. As pequenas maquinarias criadas pelo artista
nos fazem repensar o olhar para o todo, ativar o desejo pela mudança, destruir para construir um novo olhar com os mesmos recortes que se tinha anteriormente. Uma obra viva, que constrói experiências pela conexão que estabelece com o espectador e pela poesia que a habita.

O olho da rua

Leonel kaz
Rio de Janeiro, 2011

Jorge Fonseca, mineiro de Conselheiro Lafaiete (hoje morando em Ouro Preto), era maquinista de trem. Quando a Locomotiva parava numa estação ou num cruzamento, Jorge debruçava-se sobre um tecido e começava a… bordar. E foi bordando, tricotando e costurando que criou um universo próprio e particular, hoje presente em importantes coleções e museus. Esse universo existe porque Jorge traz em si o olho da rua. Com ele, captura a poética encontrada na vida cotidiana: os jogos populares, as rinhas de brigas de galo, os troféus esportivos transformam-se em pura arte. Assim, suas exposições se tornam formidáveis “parque de diversões artísticos”, onde até podem ser percebidas referências a Bispo do Rosário ou Leonilson. Ocorre que, diferentemente dos demais, Jorge corta, costura, constrói, pinta, borda e traz para dentro da obra um certo “imaginário idílico da nação”: aquilo que somos. Ou imaginamos ser. Por isso, ainda que diariamente contemplada, cada obra de Jorge permanece surpreendente. A razão é simples: estamos dentro dela. Ela é o nosso eu, nela.

Fernando Cocchiarale
(Rio de Janeiro – 1998)

Como costuma acontecer com as poéticas que se nutrem da riqueza do imaginário popular, a obra artística de Jorge Luiz da Fonseca, iniciada apenas há três anos, suscita a discussão sobre a diferença entre arte e artesanato. Foi a partir do Quattrocento pré-renascentista que a separação entre o trabalho artesanal – qualificado apenas pela habilidade manual e por uma autoria coletiva – e a atividade artística – na qual o virtuosismo submeteu-se às invenções ou idéias, essencialmente individuais e autorais – foi proposta e progressivamente consolidada. Até então, as artes possuíam uma abrangência bem maior que hoje em dia. Classificadas em mecânicas (inferiores, já que referentes às atividades manuais, características do trabalho escravo e servil) e liberais (superiores, uma vez que dependiam do intelecto, como a dialética, a gramática, a retórica, a aritmética, a geometria, a astronomia e a música), reservavam para a pintura e para as demais artes plásticas um lugar secundário, devido à sua confecção artesanal. O famoso mote “Pintura é coisa mental”, atribuído a Leonardo da Vinci, marca a mudança de estatuto da pintura: de arte mecânica – artesanato – para arte liberal – invenção autoral -, no Renascimento.

A breve ascensão da obra de Jorge Luiz parece reproduzir em escala individual essa passagem histórica. Maquinista de trem e marceneiro, cruzou há três anos a fronteira entre o artesanato e a arte. Trazendo, do artesanato, a exuberância imaginária, cromática e buscando, na arte, questões que singularizassem sua pesquisa e invenção. Tornou-se, pois, um pintor não convencional, que, em Lugar de tinta, utiliza-se de linhas e retalhos costurados, bordados e profusamente coloridos, compondo “estandartes” que podem ser remetidos à obra de um gênio da arte brasileira, o Bispo do Rosário. Tal como parte significativa das poéticas contemporâneas, a de Jorge Luiz é impregnada de simbolismos religiosos, populares e eróticos, produzidos pela apropriação de objetos, pela citação de outros artistas e contaminação de linguagens: procedimentos que emprestam os ares autorais da arte da atualidade à origem artesanal de seu trabalho.

Longe de um mero enquadramento na estética do kitsch, sugerido pela cara popular dos trabalhos, sua produção parece orientar-se como a do próprio Bispo e a de Leonílson ¬- a quem homenageou em Quem tá dentro / quem tá fora – pelo farol da contemporaneidade.

Frederico Moraes
(Rio de Janeiro – 1999)

Uma boa parte da criatividade popular está orientada no sentido da produção de máquinas. Máquinas primitivas, empregando motores manuais e engenhosas engrenagens feitas artesanalmente, ou fontes naturais de energia como a água e principalmente o ar. É o caso de tantos brinquedos infantis – manivelas para empinar pipas, cataventos, carrinhos de mão -, de bonecos de madeira que se movimentam ao sabor do vento e dos presépios natalinos, etc. Ou seja, existiria também um cinetismo popular ou até mesmo “instalações” populares. No campo da criatividade popular, as fronteiras entre artesania e arte são pouco nítidas. Ou o que começa como artesanato vai aos poucos se transformando em arte, em visão de mundo, em conceito. É o caso de Jorge Luiz Fonseca, ferroviário de Conselheiro Lafaiete, Minas Gerais, que começou bordando textos, frases, ditos populares, um pouco à maneira de Arthur Bispo do Rosário, ou reunindo imagens e objetos oriundos da cultura popular e de massa, em colagens e montagens, com resultados quase sempre surpreendentes. Hoje, apenas quatro anos depois de aparecer em salões regionais de arte, já desponta como uma das personalidades mais interessantes da nova arte brasileira. O trabalho aqui exposto, denominado Máquina de Fazer Voar, é uma bela e envolvente estrutura cinética. É, verdadeiramente, uma máquina de produzir arte.

Eu não sou o Arthur, doutor!

Rodrigo Moura
(Belo Horizonte – 2000)

Bom, primeiro, uma rápida apresentação. Tenho escrito sobre artes visuais no jornal, em Belo Horizonte, desde meados deste ano, e este é meu primeiro texto crítico para catálogo. Como alguém (Luiz Henrique Horta) já disse com sageza, muito se fala para elogiar nestes textos (como, de todo, nos dos jornais). E este não foge â regra, por mais que tente. Para falar dos trabalhos que Jorge apresenta aqui nesta oportuna mostra, contudo, tentarei um certo deslocamento, pelo menos dos adjetivos. As vírgulas são minhas mesmo, cortesia de alguma gramática.

Tais compêndios, entretanto, não contêm referências a que adjetivos usar para cada caso. São outros os que ensi¬nam (e sim, eles existem), mas ainda assim raros servem para essa nossa língua, falada abaixo do Equador, aqui, em Cru.iro do Sul. Então tange”se sempre o risco de deslocamento …

Esse, por ora, parece ser o terreno que o trabalho de Jorge começa a atingir. Ao exibir no mezzanino da Galeria este conjunto de obras, o artista acaba por afirmar de vez: “ei, cá estou, meu trabalho, etc”. (E está mesmo, vale lembrar. Itaú, Celma, Funarte e Pinacoteca de São Paulo, mostras recentes). “Mas dessa vez, guardo uma surpresa. Pois sou eu mesmo e meu trabalho” – e mais, a sua relação com o circuito, aponho eu, já crítico – “alguns dos meus novos assuntos”. Então temos um título, este aí, do alto da página, argutamente (se me permitem) pinçado de um trabalho de Jorge, que mais me comoveu entre tantos. “Eu não sou o Arthur, doutor”. Uma história em quadrinhos de Disney, com as desventuras de um caçador de talentos que enlouquece, intercalada com o discurso paranóico da negação. “Eu não sou Arthur, doutor.” Sempre ele.

Se podemos falar (e falamos) de um elã vital criativo na obra de Jorge da Fonseca, compreendida como a tentativa de criar um topos visual escorado nas suas memórias e vivências pessoais, e no seu olhar de artista desde sempre ¬fato esse consumado, já nos seus primeiros trabalhos mostrados, num cruzamento muito particular entre arte contem¬porânea e matrizes artesãs, podemos dizer que esse discurso tende a se transformar. A questão da influência, pesada aí como em tantos outros artistas contemporâneos, assume o vulto de um processo de exorcismo. E, iniciada essa empreitada, não se volta mais.

Se a técnica e a linguagem eram a questão… – Como conviver com Bispo e Leonilson tão presentes?, remoia-se a má-consciência do negativismo dialético, de plantão, pronta a catalogar, contrapor, cotejar, rotular.

Em primeiro deve-se o respeito de compreender o percurso. A memória do tecido, da linha, da costura de fontes, aparece matricial, mas não incutida por essas influências. Estas surgem antes para deflagrar a memória do artista, para elevá-las ao estatuto de arte aos (próprios) olhos de quem cria. Para dar a largada que se fazia necessária à articu¬lação do discurso pelas aproximações nem sempre fáceis entre forma e conteúdo na arte da virada do milênio – quan¬do os “eus” esfrangalhados lutam por um lugar ao sol.

Nesse processo, a poética se aproxima de outras, tentação. Mas por outras vezes escapole; tanto melhor. E tome linha e agulha – não há momentos em que a vida do artista diz tanto ou mais sobre ele que o trabalho? E seria pos¬sível deixar de citar que Jorge se criou ao pé da máquina de costura? Mas nem são suas, por vezes, essas memórias. Flanam do imaginário coletivo para os trabalhos – daí a presença eróti¬ca, marcada por forte alteridade feminina; a religiosa, por deslocamentos para o campo do erotismo.

E tome linha e agulha. Mas também apropriação e deslocamentos, como vemos. E novas possibilidades para além do plano. Numa máquina divertida, o artista-maquinista faz as manivelas girarem para a liberdade, com cor e toque – numa sintaxe quase construtiva, para o espanto desses e daqueles.

O leque de operações se abre, rompendo as comportas do “artesenal”. A mão faz, mas projeta antes, o cérebro faz valer Da Vinci. Em outros trabalhos, os elementos de apropriação se tornam ainda mais patentes. Parece inegável que haja no objeto um esforço de coleta, de inventário mesmo, das falas populares, das raízes folclóricas, dos elementos da visualidade interiorana. Como um etnólogo que vai a campo, a ele resta compor suas impressões sobre um suporte. Ou melhor, como um cronista, que bóia entre a distância e o envolvimento afetivo, tendo de administrar as tensões entre os dois campos.

Num livro de artista, Jorge compila as regras para ajudar um amigo em situações de risco. Em outra obra, uma assem¬blage kitsch, bonecos de plástico são encarcerados em pequenos bolsos de tecido hospitalar, onde recebem o veredi¬to: “esse vai ser feliz, esse não”. Tomando o auto-escrutínio novamente, o artista comenta a perversão do sistema de arte que a alguns dedica céus e a outros, peias. Contra essa doença, não há no livro de socorros uma cura. Como não há mesmo cura para nossa doença moderna. Mas, com a exposição, Jorge aponta um caminho próprio, apostando sua sublimação em três paradas, interligadas pelo percurso: tradição, influência e ironia.

Cercado de Amor por Todos os Lados

Waldir Barreto
(Goiânia – 2000)

O limite do amor é o outro, disse um filósofo francês. Portanto, não se ama apesar do amado. Amar é constituir este amado que, por sua vez, constitui o amor. Nesse jogo, o sujeito é sempre objetivado pelo revés subjetivo de seu objeto. Amar é uma atividade constituinte, uma potência produtiva, uma vontade criadora. Amor é arte pura.

Entretanto, nenhuma arte é pura. Não se cria apesar da criatura, porque criar é constituir esta criatura que, por sua vez, constitui a criação. Nesse jogo, o objeto sempre informa o sujeito por ele impregnado. Criar é perder-se outra vez no encontro, é tornar-se o outro sempre o mesmo, é morrer ainda mais vida, é dar à luz. Arte é amor puro.

Amante devotado, sobrevivente criativo, condutor de trens. Jorge honra o cânon de seu protetor, martirizado em 303 dc., cavaleiro andante, vencedor de dragões e salvador de donzelas. Logo cedo, sem qualquer escola, começou a pintar para ser artista. Preso na própria pintura, acabou debruçado sobre o cavalete contemplando a perspectiva da arte se afastar através dessa “janela”. Para romper com o incômodo dessa passividade, passou a costurar couros ali, colar objetos acolá, que teimavam em perder autonomia em favor da tela. Repetia sozinho uma luta inglória, já desenrolada há quase um século e esgotada em volumes de história da arte. Queria fazer, não sabia como. Até que, um dia, um certo Arthur, tão obstinado com sua relíquia quanto aquele rei homônimo, surgiu azul como uma revelação. Ao invés do Graal, cabos de vassoura, tábuas de caixotes, garrafas vazias, chinelos usados, panos velhos, lençóis desbotados … e bordados e costuras e bordados e costuras. O contato com o fabuloso legado de Arthur Bispo do Rosário [, por volta de 1996, foi decisivo.

No Rio de Janeiro, Jorge viu Bispo como um artista deve ver. Pouco importou se era arte ou loucura. Valeu-se dos melhores dividendos históricos da transgressão duchampiana e, com voracidade, consumiu o mais que pode da riqueza de informação visual e verdade criativa que aquela exuberância beata e delirante tinha para pregar. Toda a obra de Bispo foi impactante para Jorge, como aliás costuma ser para qualquer um, mas o Manto da Apresentação e os estandartes, especialmente, lançaram uma luz reveladora sobre seus dilemas e interesses.

Resolvida, enfim, a troca dos pincéis pelas agulhas, linhas e tecidos, as reminiscências vivas de sua tia costureira (de espetaculosas roupas para as prostitutas do bairro), da criação cristã (fantasiada pela crendice popular), das brincadeiras infantis (da criança de pé no chão), do cromatismo folclórico (das quadrilhas, congados, maçambiques e reizados), do aprendizado com marcenaria e, sobretudo, do fascínio pelo feminino, encontraram sua prática de evasão. No entanto, somente com a descoberta pouco depois de outra obra magnífica, assim como Bispo fortemente investida do elemento feminino, é que se definem para Jorge os limites entre artesanato e arte, entre habilidade manufatureira e pesquisa plástica, entre Conselheiro Lafaiete e mundo.

Decerto que a referência à obra de José Leonilson se resume apenas a uma e outra merecida deferência, como o Quem ta dentro/ quem tá fora ou as anáguas e travesseiros, por exemplo. Além de também “prestar atenção nas coisas, o que Jorge descobre neste artista comovente é a pertinência e a oportunidade, dentro do mal demarcado, mas generoso estatuto do “contemporâneo”, de sua própria linguagem recém compreendida.

Se Bispo havia revelado as intermináveis possibilidades das técnicas e dos materiais que tanto o atraíam, Leonilson assegura as possibilidades dessa atração. A descoberta pessoal que Bispo proporcionou, com Leonilson toma-se, por assim dizer, social.

Procedimento e atitude; mas um e outro aprendizado logo encontram seus limites no trabalho de Jorge. De um lado, o processo do bordado e do panejamento, como método produtivo, não chega a submeter o resultado da criação, muito distante como aliás tinha que ser, daquele iniciático inventário de tudo, que a personalidade místico e excepcional de Bispo-Romeu-Cristo consagrou.

Costume milenar entre as práticas de sobrevivência dos marinheiros, a costuro obsessiva de Bispo funcionou como uma verdadeira penitência com que ele cumpriu sua já tão famosa provação na Terra, imposta pelas “Vozes”, que açoitavam seus dias e noites. Sem nenhuma relação, a costura para Jorge é uma estratégia lúdica e performática, articula¬damente formulada em sua história pessoal e elaborada em seu atelier com a qual ao mesmo tempo soluciona um problema de suporte e inclui o próprio ato de fazer no elogio ao feminino que busca.

De outro lado, a atuação crítica e globalizante do registro contemporâneo não consegue contaminar (pelo menos até agora) a visão jocosa e comunitária de mundo com que o trabalho de Jorge encanta, muito estranha, como aliás era de se imaginar, àquela típica solidão do “El Desierto” metropolitano que a poesia intimista de Leonilson dedicou em tantas decla¬rações de amor – mas amor como redenção, complexo, introspectivo, silencioso, permeado de impossibilidade, ferido por uma religiosidade conflitante, diferente da simplicidade popular, chuleada de chavões sem nenhum conflito sobre o casamento e a esposa, copilados desde a Bíblia até parachoques de caminhão, cujo colorido gritante remete àquela estéti¬ca exagerada, alegre e frontal dos padrões folclóricos do interior brasileiro, sobretudo de Minas.

Bispo. Leonilson. Duas existências cintilantes, dois pesos modelares, duas referências difíceis de disfarçar. Curiosamente, uma das virtudes mais surpreendentes do trabalho de Jorge é justamente a franca inexistência de disfarces. Absorve informações como ele¬mentos expostos de sua estrutura própria, como vocábulos declarados em sua sintaxe particular. Tendo a viagem como profissão, este maquinista sai por aí apontando atento para as coisas (como o viajante Leonilson, de tantos idas ao exterior) sua antena liqüidificadora (como o do outro viajante, o marinheiro Bispo) captando e reciclando tudo que vê. A inteligência visual de Jorge possui a rara qualidade de reconhecer, decodificar e recodificar tudo com o senti¬do neologista de seu discurso singular e espontâneo. Pois que, as referências claramente identificáveis cumprem uma função muito mais significante do que meras citações; são cicatrizes, episódios da vida do artista e seu processo criativo, marcadas na carne de seu trabalho.

Feriados folclóricos, festas da cidade, cotidianos do bairro, missas de domingo, lem¬branças da família, praças, namoros … a vida que corre ao lado. Tudo marca e cicatri¬za. No fim da rua, por exemplo, a visão de alguns meninos empenhados numa inocente batalha aérea de esperteza e engenharia de papagaios, vira no atelier de Jorge uma deliciosa salada de bricolage e trompe-I’oeil, uma lúdica sustentação entre instalação e pintura, um impensado vôo de Volpi sobre Magritte. Noutro momento, ele empresta à madrugada silenciosa do colorbar uma voz de horário nobre, horizontalizado em páginas coloridas de um roteiro de telenovela, num inusitado e melodramático calendário pop. Sua ironia não poupa a banalidade pararreal do principal espelho dessa mass media: a classe média, que Jorge bem conhece. Tão bem quanto conhece as incontáveis histórias de traições, adultérios e concubinatos, onde a ironia, então, vira ardil de amante – que “só quer o carinho” desejando o resto; que “não quer nada” planejando tudo – e a referência ao pop vira reverência ao kitch. “Puro cinismo”, diz ele rindo.

Até mesmo para homenagear seu guia mais sério, vale o cinismo e a ironia da criação. O milenar ícone masculino de São Jorge, herói de batalha encimado pelos símbolos fálicos da lança e do eqüino, não resiste à apaixonada apologia do feminino e à evoção do amor desse artista heterodoxo. Sua visão sincrética inventa livremente uma brilhante noiva guerreira para o santo/orixá, com cuja armadura se pode travestir a própria entidade ambígua. Heresia? Ao contrário, sogração da união vital entre feminino e mas¬culino, entre deus e humano, entre arte e amor.

Não obstante, toda esta efusiva celebração à vida carrega também uma severa crítica moral. Há, na retórica sublinhar de Jorge, uma contundente censura ao embrutecimento dos relações humanas e a uma espécie de “masculinização” da arte contemporânea, identificada no apelo abusivo ao abjeto, ao escatológico e ao chocante. Esta postura o remete, na medida ética, àquele “ideal cavaleiresco romântico” e àquela “idealização da mulher” que um grupo de jovens pintores, formado em 1848 e chamados de Pré-Rafaelitas, defendeu vivamente contra o “orgulho que transformara a arte numa atividade intelectu¬al”, lógica e sem sentimento.

Embuído do espírito romântico, o artista ousa se auto-retratar heróico e imaculado, radicalizando o exemplo daqueles jovens, que buscaram resgatar a pureza religiosa da arte anterior à intelectualidade de Rafael e Michelangelo. No entanto, já absolvido pelo liberalismo formal, pela permisividade sincrética e pela ironia dos novos tempos, Jorge dispõe sem culpa da iconografia católica. Pode colorir, mudar símbolos, brincar. Pode se aproveitar santificado da androgenia hagiológica para mais uma de suas tantas visitas ao feminino. Pode, enfim, ser irreverente, mantendo-se fiel à melhor característica de seu humor peculiar – um pouco ingênuo, um pouco mordaz.

Neste trabalho exemplar, Jorge se coloca bendizente no centro de um vibrante diadema heliográfico, radiado de pequenos corações. Ostentando uma dourada auréola bizantina, faz uma espirituosa paródia dos raios daquele Sol identificado com o Cristo, da típica versão do pensamento medieval sobre o poder divino, muito popular até o final do século XIII. Se aquele sol escolástico, que queimava as ervas daninhas e rasteiras no zênite do alto verão antecipador da primavera, emanava do Cristo, que queimaria os pecadores no Juízo Final antecipador do Paraíso, estas ondas de coraçõezinhos vermelhos (espécie de “marca registrada” de Jorge) simbolizam toda a energia amorosa e pacificadora que o romantismo de sua arte visa irradiar.

Amor e arte, arte e amor, numa só urdidura. À exceção da maioria dos mitos que prepa¬raram nosso imaginário ocidental, Érõs não era um estado ou um fenômeno natural, mas uma força. Capaz de elevar a emoção humana ao nível de uma força cosmológica, intermediária entre o divino e o mortal, o Amor tudo une, tudo move. A dinâmica entre união e movimento explica a criação. Assim, no despontar de nosso pensamento, aquele ungido por Érõs, Motor da Criação, tornava-se ele próprio um criador; era um de-miourgós, um construtor, um artesão, aquele que reproduzia em escala humana a paixão pela bele¬za, pelo sublime e pela fruição – em uma palavra, um artista.

Ora, Cercado de Amor Por Todos os Lados, o que mais poderia fazer Jorge, se não arte?

Procura-se

Waldir Barreto
(Rio de Janeiro – 2001)

A história da arte é também uma história da procura. Aliás, toda redução his¬tórica é, a princípio, uma procura. Como ofício, a arte buscou, ao longo dos tempos, as excelências harmônica e expressiva, a medida e o gesto. Como ci¬ência, buscou o Belo, a Natureza e o Deus.

Com a imanência do belo, a humanização .da natureza e a morte de deus, a arte que sobreveio à crise moderna do saber ocidental caracterizou-se pela busca da arte mesma. A importância de uma função ou de uma finalidade da coisa artistica para uma cultura ou uma civilização foi radicalmente abando¬nada, ou esgotada, no decorrer do século XX, que se ocupou quase inteira¬mente, sobretudo na segunda metade, de uma arte em busca de um sentido ou de um conceito possível a partir dela mesma.

No trabalho do maquinista Jorge Fonseca também trilha esta procura, mas, de certo modo, tenta reconduzi-Ia para fora desta tautologia. Quer dizer, tenta retomar um caminho, esquivo, em que a produção do artista deixe de operar uma redução fenomenológica sobre si mesma, reconquistando sua coerência com a experiência coletiva e seu papel no desenvolvimento humano.

Cidadão do interior de Minas Gerais, sua personalidade é completamente per-passada pela moral e pela religiosidade desta região, portanto pela dimensão espiritual que as caracteriza e as opôe à materialidade metropolitana; assim como seu olhar pelo folclore e pelo repertório estético popular, portanto pela dimensão tradicional e comunicativa que os caracteriza e os opõe ao atual dis¬tanciamento entre a realidade da arte e a realidade do conceito de arte (con¬forme o preocupante diagnóstico de Argan).

Sem a dúvida que marcou a produção artística contemporânea, sua lingua¬gem plástica é tão exata e segura quanto àquela de seus maiores referenciais. De um lado, a relíquia afirmativa de Bispo do Rosario lhe garante a dignidade expressiva dos panejamentos e dos bordados, tanto quanto das bandeiras do Divino e dos chapéus de Reizado, da educação cristã e das costuras de sua tia. De outro, a solidão aventurosa de Leonilson lhe assegura a atualidade artísti¬ca que subsiste na historiografia pessoal, na opção moral humanística e, como não, no próprio Bispo, tanto quanto na femilidade e na caligrafia, nas citações biblicas e nas entregas amorosas.

No entanto, se Bispo buscava Deus e Leonilson o indivíduo, pode-se dizer que Jorge busca uma reconciliação entre ambos. Seu projeto tem a forma de um grande aviamento, que visa religar os pedaços retalhados da colcha humana. Amiúde, Jorge quer costurar novamente a fé com a saúde, o amor com a feli¬cidade, o futuro com a sorte, o desejo com a predição, o sonho com a viagem, o parente com a familia, o homem com a vida.

O fato de manter-se produzindo a partir desta “idéia” sobre como o mundo deve ser, que condena sua energia produtiva a um processo inabalável de busca, empresta ao seu trabalho um compromisso quase religioso, ou mes¬mo filosófico. Sua tessitura quer sempre restituir algo de fundamento ético desfeito, cujo caráter é inegavelmente redentor, conseqüentemente, ideal ro¬mântico.
Neste sentido, o cuidado de não reduzir sua linguagem a uma figuração mo¬ralista enquanto, ao mesmo tempo, a lança no corpo social como manifesto poético, faz com que Jorge busque, repetidamente, superar os suportes, as re¬tóricas e os limites museográficos com que, paradoxalmente, conta. O desafio que se lhe impõe é sempre o de encontrar, dentro do laboratório técnico das linguagens contemporãneas, caminhos possíveis de expressão para seu espírito romãntico.

Desta vez, Jorge pretende canalizar toda sua exposição para um único ato de interferência, que conjugará mostra em galeria, presença em praça pública, anúncios em jornais, chamadas em rádios do Rio de Janeiro, São Paulo e onde mais for possível. Todo o ato, que deve ser considerado em sua unici¬dade, tem como tema primeiro e sentido existencial a procura, mas como pre¬texto a busca por um de seus irmãos, Marcio Antônio da Fonseca, desapareci¬do há mais de 16 anos.

Sua expectativa é poder administrar a imagem pública do artista, quase como um showman, como ferramenta de sua produção e mensagem. Lança mão, a seu modo, de uma estratégia já diversificada entre tantos artistas, desde o Duchamp da associação contestadora com Man Ray até Beuys, desde Dalí até Warhol.

Durante o período em que a mostra na galeria estiver aberta ao público, Jor¬ge planeja fazer aparições em praças do Rio e São Paulo, trajado de forma in¬comum’ , para distribuir panfletos com uma foto de seu irmão encimada pela mensagem “Procura-se” (na verdade, convite de sua exposição, que não deixa de lembrar o cartaz da retrospectiva de Duchamp em 1963, Wanted, $2,000 Reward, ainda que em nada relacionado à ironia crítica e provocativa do ar¬tista francês]. Concomitantemente, planeja também ocupar diversos serviços públicos de “achados e perdidos”, no maior número possível de veículos de co¬municação de massa. Atitude estranha para um artista, caso não viesse a se constituir como uma atitude de artista.

Apostando nas marés provocadas pelos mecanismos de circulação de infor¬mação na sociedade, Jorge jogará neste mar uma pergunta. Cheias e vazantes se encarregarão de trazer-lhe alguma resposta, numa onda qualquer, ou não.

Da forma como supõe tratar este panfleto “Procura-se Marcio Antõnio da Fon-seca”, como uma espécie de readymade posto à sorte, inserido em um circuito social, Jorge nos remete à noção de “meio circulante” que Cildo Meireles intro¬duziu em seus Projetos Coca-Cola e Cédula de 1970-75. O notável é que, do ponto de vista significativo, as inspirações daqueles projetos – as “correntes de santos” e as “garrafas de náufragos”, parecem intimamente filiadas a este “pro¬jeto” de Jorge, tão alheio às implicações lingüísticas e sócio-políticas de Cildo.

Numa certa medida histórica, propriamente contemporânea, sua dívida mais imediata é com os artistas do chamado “corpo transfigurado”, desde o Black Mountain College de Kaprow, que inscreveram a própria pessoa viva como campo possível da experiência artistica. Estes artistas, que tentaram levar ao máximo a identificação arte e vida já semeada no Futurismo e no Dadaísmo, abriram caminhos decisivos para a atitude tornada forma.

Jorge, entretanto, aspira mais. Visa ultrapassar os limites corporais desta “pes-soa viva” para experimentar na vida da pessoa. Este artista estará se apropri¬ando da sorte de sua própria história pessoal como material possível de con¬seqüência estética. Pretensão ousada. Para além dos happenings, da body-art, das performances ou mesmo da conceptual art, quer também transfigurar o ato artístico, mas não apenas transpondo o suporte estético do cavalete para o objeto, o corpo ou a idéia, senão tornando matéria artística o próprio desti¬no – esta força em si mesma criativa. Submeter a própria vida, o próprio peri¬go de viver, à vontade experimental de forma. Esculpir a ética como estética.

Já numa certa medida filosófica, propriamente romântica, sua dívida mais lon-gínqua é com a origem das práticas teatrais na Grécia Antiga (tão fundamen¬tais a este surpreendente “retorno” do experimentalismo estético contemporâ¬neo à Cênica e ao corpo). Como aquele grego, Jorge procura uma “solução” para o trágico insuportável da vida, transformando-o em obra de arte, a qual, nesses nossos tempos ausentes, almeja ainda poder ser arte.

A celebração da arte afirmativa

Alexandros Papadopoulos Evremidis
(Rio de Janeiro – 2004)

Assim como é sempre bom lembrar a asserção óbvia de que um copo vazio está cheio de ar, convém também não esquecer do atributo pétreo da arte que é o de nos causar imediata surpresa e conseqüente estranhamento, ambos seguidos de etéreo encantamento – para o bem, para o mal. Sabe aquela espécie de obra de arte que, no que você bate o olhar, te captura, te aprisiona, te submete, mas também não te permite ficar apático e impassível? Foi o que aconteceu ao me deparar com a singeleza e a candura dos trabalhos de Jorge Fonseca, plenos da mais pura emoção a evocar e excitar os nossos desejos mais íntimos e recônditos, quase inconfessáveis. É preciso coragem, ingenuidade e imaculada inocência para não se envergonhar e constranger da posse de sentimentos em meio às maquinações da maquinaria. Era bom ver alguém que não nadava nem contra nem a favor das marés e dos modismos, não era católico nem protestava contra nada, alguém que, firme sobre suas raízes populares, traçava o próprio caminho e navegava seu rio interior em direção à plenitude amorosa.

“Pode pisar, eu deixo”, traz inscrito um capacho/objeto feito de grama, obviamente, diante do efêmero, sintética. “Revelação”, titula-se uma sinuosa anágua rendada, de cálida e convidativa e irreprimível sensualidade. “Se você está ao meu lado”, sentencia um travesseiro cravejado de preciosidades sonoras prenunciando o anúncio do que está por vir – a trêmula expectativa da pessoa amada. “Tá esperando o quê?”, incita mais do que pergunta outra obra que exibe uma figurinha no alto de uma escadinha, em pleno espaço, onírico e adiamantado, e a gente se sente como se ele nos dissesse “Sobe mais (ou salta), homem, não há o que temer, voa ou mergulha no campo azul dos sonhos e da imaginação criativa”. E para os que ainda assim, recalcitrantes, teimam em hesitar, Fonseca disponibiliza um par de assas columbinas, brancas! naturalmente – voar, voar! não é só com os pássaros, é o que ele, qual Dédalo, nos quer re/ensinar. E para chegar aonde? A um arranjo floral, em cujo epicentro, em forma de “tondo”, um chalezinho de chaminé enfumaçada nos espera, à beira de um riacho, meus livros e meus discos e principalmente você que confere sentido ao ser em meio ao nada. É esta a pureza de alma desse moço humilde na origem e sofisticado na realização construtiva do objetivo – icônico e paradigmático.

Chega desses devaneios com que a arte, qual narcótico, nos seduz e vicia, e vamos ao terreno, ao terreiro hierático! a que ela nos conduz! Retomando a linha e as rédeas, dizia eu que no primeiríssimo contato visual com as extemporâneas, por anacrônicas diante do materialismo desenfreado imperante, criações de Fonseca, senti o impacto – as maçãs de minha face se ergueram, repuxando os cantos da boca, agora semi-aberta, e o desenho de um sorriso se instalou e amplificou e os olhos, avivados, brilharam. “Venham ver!”, chamei empolgado meus familiares, dispersos por aí, venham ver que arte maravilhosa! De fato, acorreram todos e enquanto observavam as obras, eu observava as suas fisionomias. E não deu outra – o tal sorriso nasceu nos rostos de todos, se expandiu e se estendeu, e os deixou com cara de sol reluzente e feliz. Esse, o poder da arte sincera e espontânea, despretensiosa. Tivesse o Fonseca usado as próprias tripas para costurar, bordar e tricotar e não teriam suas criações sido mais autênticas, no pathos e no pothos, no invencível, diante do Thanatos, Eros que as dominava.
Intrigado com toda aquela empatia e a identificação que se havia apossado de mim, fui, curioso, saber do título da mostra – “Me alugo pra sonhar”, dizia o sublime mercador e no ato a fraternidade se consolidou. Anos antes, eu havia inserido um anúncio no jornal anunciando a venda dos mais variados sonhos e, lúgubre, até de pesadelos, “Para quem é incapaz de sonhar”, dizia. Ali, agora, estava explicado por que me sentia em casa de um irmão. A comunicação plena estava estabelecida e a comunhão encontrava-se em curso, com o concurso da arte, cujo outro atributo é sem dúvida esse – o de cumplicidade na conspiração.

Não devo em hipótese alguma desviar do assunto sem antes ressaltar, além da muito plástica e texturizada e pictórica excelência das “volumosas” obras, que incontinenti nos condizem à retina e ao tato, essa delícia de ferramenta com que a natureza nos dotou, a suprema poética de sua conceituação intelectual e também a concretude, coisa só de apaixonados doadores de universos reais e concomitantemente virtuais e, o melhor, a todos de todo acessíveis. Além, muito além da matéria insossa e vulgar está a morada de Fonseca – continente que é de um ideário estético urânio.

Do pai, maquinista de trem e marceneiro, o artista aprendeu a lidar com a madeira e o fogo e a andar na… linha. Da mãe e das tias, costureiras e bordadeiras, aprendeu o desenho, a forma, a cor, que transcendendo a manipulação da linha e da agulha e a confecção do necessário, do útil e do funcional, aportou na artística tarefa de formatar a vida, repaginar-lhe os dias e as horas e embelezá-la, reaparelhá-la com o mágico encanto perdido ou desperdiçado. Pavimentar o curso do trajeto, seu e o alheio, com a energização da libido que nele se expressa superlativamente e derrama emoções e sentimentos, sonhos e ilusões, desejos ardentes – tudo que é capaz de tornar o homem feliz. E onde se encontra isso? Entre o céu e a terra – o misterioso Urano e a gaiata Gaia -, que Fonseca reúne em êxtase, por meio da linha de suas pipas, vasos condutores e comunicantes da matéria e do espírito e de tudo o mais que do homem faz nascer o humano.

A arte, tal qual a amizade e o amor, cuja soma é responsável pela maior parte do que nomeamos felicidade e pelo que todos os viventes, cada um a seu modo, anseiam, freqüentemente se encontra muito mais próximo do que imaginamos – quando não em nosso interior, ao imediato redor e ao alcance de nossas mãos e de nossas aspirações. Ciente disso e por estar imbuído de espírito luminoso e afirmativo, Fonseca não foi longe, nem recorreu ao sobre e supernatural – colheu aqui mesmo, no cotidiano mais prosaico, os elementos constitutivos de sua arte e, re/significando-os, os inundou de poesia e paixão. Acorde com a contemporaneidade, serviu-se de suportes que permeiam amplas gamas de realidade a par com os territórios da fantasia, tecendo assim o tecido que teceu nossas mais caras tramas com a linha da memória afetiva. E construtivo, como laboriosa aracné, nos enredou e tornou súditos cativos. E o melhor, com todo prazer, esse mesmo prazer que ele insinua, sugere e oferta em generosas doses – sublimado e a um tempo absolutamente carnal, onde há lugar para ele, para ela, e ainda para o outro e a outra, para todos quantos.

Tá esperando o quê?

Waldir Barreto
(Rio de Janeiro- 2004)

Muita gente se pergunta, ainda hoje, sobre quais as possibilidades de uma arte inevitavelmente globalizada, mas, ao mesmo tempo, substancialmente nacional. Embora pareça, não é uma questão anacrônica. Tampouco se esgota ingenuamente numa produção que desconheceria ou resistiria à informação importada em favor de alguma espécie de artesanato museológlco. Ao contrário, ela pergunta sobre aquele artista que, exatamente a partir do repertório da arte ocidental (genealogicamente europeu), busca tratar seus vocabulários ou temas regionais de forma substancial, quer dizer, não circunstancial em relação às linguagens internacionais.

Questão lançada pelos modernistas, talvez somente agora, quase um século depois, comecemos a vislumbrar a sua história. Decerto que o Parangoié não é performance, nem Instalação. O Parangolé é samba, As adorações de Nelson Leirner não são ready mades dadá, mas sincretismos oxalá. Emmanuel Nassar, Marepe, Efraim Aimeida são alguns exempios de artista cuja produção, alheia aos maneirismos bienais, se dá sob essa difícil exigência de ser brasileira, mais do que representar uma identidade brasileira.

Com cerca de uma década de produção, Jorge Fonseca pode ser listado. Apesar das suas sedutoras artesanalidade e biografia autodidata, não nos enganemos, nada em seu projeto criativo pode ser classificado de primitivo. Basicamente, é um artista que, de uma parte, soube não enxergar Marcel Duchamp em Bispo do Rosário e, de outra, o que pode haver de agora contemporâneo no perene tradicional da cultura sincrética brasileira, especificamente o folclore e as festas religiosas de Minas Gerais, sempre fiel a sua temática característica, o amor novelístico do ideário popular brasileiro, perpassado de melodrama e poesia proverbial, Jorge visa construir um ambiente imaginativo e interdimensional. Meio fantasia, meio fato, cada trabalho seu evoca uma pequena história de vida, um pequeno •causo•, cuja generalidade ficcional ganha especificidade e sentido no realismo de cada apreciação. Para jogarmos com as palavras, poderíamos dizer que o subjetivismo de cada trabalho seu ganha objetividade em cada sujeito. Essa interatividade psicológica e afetiva entre artista, trabalho e espectador é o diapasão de toda a sua produção.

Daí nos ser de boa ajuda lembrar de dois movimentos artísticos em que a imaginação cumpriu papel fundamental, seja como estratégia de concepção ou de recepção, o Surrealismo e a Arte Conceitual. Jorge redesenha livremente a iconografia foiclórica para criar simbologias evasivas; reescreve o anedotário popular para criar jogos interpretativos, O casamento que promove entre ícone e provérbio, entre onirismo e conceito, tem uma só intenção: o lirismo, como expressão de sentimentos, exatamente no sentido em que Benedetto Croce o considerou, como símbolo geral da arte, tanto quanto referências que vão do Reisado à frase de caminhão, citações a artistas que vão de Magritte a Leonilson são evidentes e valorosas.

Diante do deserto de auto-referências, escatologias, expurgos morais, recalques femininos e solidões em que a produção contemporânea, às vezes, parece nos exilar, o trabalho de Jorge, num sentido oposto, parece ter a capacidade de, por alguns momentos, ihe colocar numa espécie de oásis e ver flores em você.

Antes de formalismo e ontologias, este romanticismo de uma exposição de Jorge, com a avassaladora atualidade de sua crítica humanista, possui essa rara qualidade de mostrar um artista desarmado da arrogância institucional. Como um capacho, expôe inteiramente todo o seu ser. Pode pisar. Então… ‘Tá esperando o que?’

Maquinações

Rachel Falcão
(Belo Horizonte – 2008)


A imaginação não é, como sugere a etimologia,
a faculdade de formar imagens da realidade;
ela é a faculdade de formar imagens
que ultrapassam a realidade,
que cantam a realidade.
É uma faculdade de sobre-humanidade.
Bachelard

Convidada a escrever o texto crítico para o catálogo desta exposição de Jorge Fonseca, uma alegria e um temor se abateram sobre mim: como conseguir o distanciamento necessário para analisar criticamente um trabalho artístico cuja presença em minha vida se dá de maneira tão próxima e intensa? Por outro lado (pensei), a oportunidade de uma convivência maior com o artista me traz possibilidades únicas de falar da intimidade de seu processo criativo e produtivo. Além disso, Jorge me propôs que escrevesse muito mais a respeito da idéia que está por trás desta exposição (e também pela frente, pelos lados, em cima e embaixo, preenchendo todo o seu pensamento e o seu coração) do que das obras que a compõem.

Sendo assim, resolvi aceitar (mesmo correndo o risco de escrever um texto que privilegie a poesia em detrimento da crítica), tendo por respaldo minha visão particular de Jorge: a de um artista que é, ao invés de um artista que finge ser, pensa ser ou parece ser.

Pois bem. Muito se tem dito sobre a obra de Jorge Fonseca, quase sempre enfatizando o cruzamento de gêneros que a faz tão singular, já que seus procedimentos típicos da artesania, ilustrados por uma iconografia baseada na cultura popular e trabalhados a partir de um forte viés conceitual costumam gerar resultados inusitados e admiráveis (o que é uma evidência indiscutível, aliás, mais uma vez confirmada diante das “máquinas” que aqui se apresentam).

Buscando fugir ao lugar comum (que na verdade, em se tratando de Jorge, não é nada comum), pensei então em analisar o processo de criação desta mostra – incluindo idéias, imagens, obras e making of – que revela o quão dinâmica é a imaginação deste artista, que se aventura sem medos pelos caminhos da investigação estética, indispensável à arte contemporânea.

Para começar, o céu. (Porque Jorge queria que suas obras voassem…)

(…) tomou da bruma azulada toda a matéria azul que a própria bruma tomara do céu azul. [A obra está agora toda animada] por essa transferência do azul, por essa alquimia do azul (…) Sinta-a (…) Ela possui asas (…)

Apropriando-me destas palavras de Bachelard, que descrevem um tipo de alquimia artística que o filósofo via em algumas telas de Monet, cujo tema é a Catedral de Rouen, digo que o céu de Jorge Fonseca também é fruto de um processo de transubstanciação. Também ele é um alquimista, capaz de transformar algodão, tinta, tecido e até algodão doce em céu; capaz de formar constelações com polias, correntes e elásticos entrelaçados em fluxos lógica e longamente matutados; capaz de transfigurar madeira, metal e linhas em Máquinas de Fazer Voar!

E se existe um “azul Yves Klein”, certamente existe um “céu Jorge Fonseca” – que tornou-se uma de suas marcas registradas (ao lado do coração de cetim vermelho, dos bordados de orações e cânticos e das manivelas de soltar pipa). Seja como for, Monet, Klein ou Fonseca – ainda que se alterem os contextos e as formas – são todos alquimistas – da matéria e do olhar.

Nesta exposição, Jorge nos leva às nuvens (literalmente e de várias formas diferentes)! Joga-nos nesse espaço ilimitado por onde trafegam cores e idéias, voam pipas e giram astros – ele próprio um deles, a se desintegrar e se recompor como um deus, num céu de círculos e espirais, feito furacão. “Hurricane”. Com este trabalho o artista reafirma seu interesse pela arte cinética e sua disposição em buscar uma interação cada vez maior com o espectador, que passa a agir como força propulsora de suas peças.

Em outras imagens, o ilimitado do céu costura-se com a indefinição do tempo. Um relógio sem ponteiros (mais um de seus maquinismos) e um guarda-chuva com um belo céu azul portátil (guarda-céu) operam no redimensionamento das noções de tempo e espaço. Como um Magritte contemporâneo, Jorge cria paradoxos ilusionistas e analogias desconcertantes. Só se percebe que algumas nuvens são de vapor e outras de algodão doce no momento em que se desmancham – na atmosfera ou no céu da boca. E o espectador é convidado a habitar este “intervalo” criado/proposto pelo artista – quando sai de cena a certeza do que se vê, entra em cena a certeza da poesia.

Neste seu trabalho de recriar o que vê e encher de poesia o mundo pragmático em que vivemos, o ex-maquinista de trem (locomotiva também é chamada de “máquina”, no “dialeto” ferroviário) aciona seus olhos de criança e sua alma de inventor. Deste modo, além de obras de arte, as máquinas jorgeanas são também objetos artesanais e brinquedos. Quando constituídas por peças tradicionais da cultura popular – como no caso das manivelas de soltar pipa – a carga semântica original do objeto se mantém, apresentando-se, porém, potencializada e ampliada pela possibilidade de novas leituras. Enquanto brinquedos de movimento que são, os efeitos óticos obtidos pelo uso das cores, pela repetição de elementos e pelas imagens-vultos combinam-se em múltiplas variantes e provocam uma vertigem visual que é fonte de surpresa e prazer – sensações que nos tomam de assalto antes mesmo de tentarmos entender racionalmente como a coisa funciona. Podem, ainda, ser vistas como experiências pictóricas, mesmo quando compostas apenas de madeira e linha ou madeira e lata – as peças e cores se fundem no movimento, criando quadros quase impressionistas (de outro ponto de vista, há quem veja nas manivelas alguma semelhança com as bandeirinhas de Volpi).

Fato é que são obras de grande riqueza construtiva, formal e simbólica. “Invenções líricas, combinações técnicas e símbolos sensíveis” – festa para os olhos e festa para a alma; objetos concretos, mas também objetos transformados, agidos – puro deslocamento imaginário. Trazem de volta a infância e a sensação de liberdade que caracteriza essa fase da vida, quando nos é possível recriar as coisas do mundo como quisermos ou formos capazes de enxergá-las.

Já disse Frederico Morais, no texto do catálogo da exposição Máquinas de Arte, de 1999 (da qual Jorge participou), que “os eruditos da Renascença adotaram a palavra machina com o seu sentido primitivo de ‘obra composta com arte’, que a partir do século XVIII passou a significar artefato mecânico, invenção engenhosa. Engenho e arte, pois.” E assim entende Fonseca, que se apropria da “truquenologia” presente no cotidiano nacional, além de maquinar e construir suas próprias “gambiarras truquenológicas”, diga-se de passagem, milimetricamente planejadas. Voltando às palavras de Frederico, em seu comentário a respeito da Máquina de Fazer Voar, do então jovem artista mineiro em início de carreira: trata-se de “uma bela e envolvente estrutura cinética. É, verdadeiramente, uma máquina de produzir arte”.

Em sua condição de obras de arte, as máquinas criadas por Jorge são objetos potentes, carregados de latências, que agenciam memórias, sorrisos, saudades, valores estéticos e existenciais. São obras que constroem experiências, pela conexão que estabelecem com o espectador e pela poesia que as habita.

O filósofo Didi-Huberman diz que aquilo que vemos só vale, só vive em nossos olhos, quando também nos olha, cheio de sentido e significado. Nas palavras de outro – Baudrillard – “a realidade só nos é captável quando nossa identidade nela se perde”. Talvez esteja aí o segredo da relação de empatia que as obras de Jorge estabelecem com as pessoas em geral: ele sempre trabalhou unindo arte e vida, transitando entre o universo público e o seu universo particular e enxergando a arte como um simples deslocamento do cotidiano. Acontecimentos e objetos banais, que em seu contexto original passam despercebidos ao olhar comum, sempre o seduziram. Assim, seu território estético tem sido definido por este hábito de usar a vida como matéria-prima potencial e essencial de seu trabalho (vale a observação de que o ateliê do artista é um espaço aberto e acessível, em comunhão com sua vida familiar).

E é deste amplo horizonte que emerge, em Jorge, sua sensibilidade pelo material, que lhe permite munir as coisas de grande carga subjetiva, bem como re-significar e re-funcionalizar objetos.

Carpe diem. Jorge não quer parar o tempo. Nem tampouco, parar no tempo. Tanto, que inventa e disponibiliza para as pessoas novas formas de experimentar, transformar e intensificar seu modo de sentir e ver o mundo. Como artista que é, autor de obras legítimas – autênticas em sua forma e verdadeiras em seu conteúdo – ele brinca com fogo nos jardins do paraíso.

Estes “Tempos Modernos” pertencem aos domínios da imaginação e das experimentações estéticas. Como na vida contemporânea, o percurso desta exposição é definido pelo cruzamento e entrelaçamento de infinitos fluxos, que seguimos sem previsão de pouso. A questão a se considerar é que ter e utilizar asas é mais significativo, mágico e revelador para quem tem também raízes.

O Artista e o Guerreiro

Ângelo Oswaldo de Araújo Santos
(Ouro Preto – 2003)

Diz a história que, no São Jorge encomendado pela Câmara de Vila Rica de Ouro Preto, o Aleijadinho plasmou a caraça de um áulico do governador da Capitania, com o qual se desentendera. E que o santo deixou a lança cair sobre o pajem que lhe conduzia o cavalo, em plena procissão, matando o jovem infeliz. Por isso, foi a estátua feita prisioneira na Cadeia, hoje Museu da Inconfidência e morada definitiva do guerreiro.

Quando Rui Mourão promoveu o restauro do manto de São Jorge do Aleijadinho, já visando a nova museografia do Inconfidência, ofereci ao diretor uma fotografia conservada entre velhos papéis, na qual se vê o dispositivo original da estátua do Museu, com capa e sela apresentadas em destaque. e disse ao artista Jorge Fonseca, ao encontrá-Io em sua cidade, Conselheiro Lafaiete, que seria importante que ele, às voltas com a iconografia jorgeana, fosse a Ouro Preto conhecer o legendário guerreiro aleijadiano e a bela capa.

O encontro de Jorge e São Jorge resulta em acontecimento artístico singularmente significativo, que tenho a alegria de saudar. Logo se sente como pode ser rico e fascinante o diálogo de um artista com seu patrim6nio cultural. São muitas as sugestões que vêm da instalação de Jorge Fonseca para celebrar o São Jorge do Aleijadinho. O artista ritualiza sua criação. Rende homenagem ao guerreiro protetor e ao grande mestre. Recupera as procissões da história, com seus estandartes e opas em marcha de fé e festa.

Parece o manto cobrir e envolver os dois Jorges. O artista refaz, em suas capas, os “parangolés”, de Oiticica, tornando-os o contraponto da veste com que se paramenta o cavaleiro para o solene cortejo do Corpus Christi nas ladeiras de Vila Rica. Reúne e integra, no carisma do vencedor do dragão do mal, ícones africanos, milenarismos sebastianistas, encarnações espíritas, transcedências. Arrasta legiões que se sucedem no tempo para que tributem ao santo e ao escultor um preito que também se funde, sincreticamente, no ato único do préstito que atravessa a Sala Manoel da Costa Athaíde.

É na instalação que um artista instigante como Jorge Fonseca pode conquistar a multiplicidade de expressões que seu trabalho quer enredar. À profusão exuberante do fazer aliam-se o dinamismo cênico e a tensão dramática da religiosidade. O desempenho sacramental dos materiais tocados pela aura da arte revela a vocação dos objetos para a representação do sagrado em termos visuais.

Aderimos à caminhada, ingressando, também nós, expectadores, na corrente processional que a instalação nos propõe. Participamos da obra de Jorge, resgatamos o impacto dos fiéis setecentistas de São Jorge. Revivemos a emoção da arte do Aleijadinho na redimensão de Jorge. Alcançamos a tradução da escultura teatral do Aleijadinho no teatro escultural de Jorge Fonseca, a ele acrescentando o nosso desempenho.